O crescimento das teorias da conspiração: Reificação da derrota como fundamento da explicação

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Durante a campanha do referendo relativo à filiação à UE no Reino Unido, circulou um boato de que o resultado estaria comprado[1]. O MI5 ou alguma outra agência obscura, dizia-se, manipularia o resultado para garantir que, apesar da “opinião popular”, o lado “Permanecer” prevaleceria nas urnas e não haveria o Brexit. O fato de que lápis (ao invés de canetas) eram usados nas cabinas de votação foi citado como evidência para esta trama (já que marcas a lápis podem ser apagadas com borracha e alteradas, enquanto marcas à caneta não). Uma pesquisa de opinião da YouGov descobriu que 28% da amostragem disse que o referendo provavelmente seria manipulado (e 26% disseram que não sabiam). Estas opiniões sobre interferência clandestina do establishment eram bem mais fortes entre os votantes “Abandonar” do que entre os “Permanecer”, e eram particularmente comuns entre os apoiadores do UKIP.

Um exemplo paralelo é a afirmação de alguns sobre os assassinatos do Charlie Hebdo em 2015 serem “operações de bandeira-falsa”, isto é, operações conduzidas pelo Estado feitas de modo a parecerem realizadas por outras forças. Algumas supostas inconsistências no relato — como a aparente falta de sangue quando o policial levou um tiro na cabeça — foram citadas como evidências de que esta foi uma operação secreta, disfarçada como um ataque terrorista de apoiadores do ISIS. A operação secreta foi atribuída a diferentes agências — incluindo a CIA e Mossad[2] — apesar de contraprovas documentadas[3]. Explicações de “operações de bandeira-falsa” semelhantes também surgem após os atentados de Oklahoma em 1995, em 2004 no trem de Madrid, o tiroteio na Sandy Hook Elementary School em 2012, o atentado na Maratona de Boston em 2013, dentre outros eventos.

Outras teorias da conspiração semelhantes assumem a forma de negar que um evento ocorreu — como os pousos na lua; neste caso, há uma conspiração para inventar evidências do pouso através da falsificação de imagens, pelas autoridades, sendo novamente um evento retratado como muito bem sucedido, já que grande parte do público acredita em sua veracidade.

Apesar de suas diferenças, cada uma destas explicações tem muitas das características de uma teoria da conspiração contemporânea. Em cada um destes casos, há uma perspectiva crítica, uma suspeita daqueles no poder, cujos interesses são vistos como diferentes do/e em conflito com o público mais amplo (o “povo”). Essa suposição populista de “povo vs. elite” está casada com uma noção da intervenção oculta de forças estatais e, crucialmente, da noção de que estas forças seriam bem sucedidas. Junto de uma ontologia antielitista está uma epistemologia elitista, pois a explicação do fato do conhecimento “mainstream” estar errado parte da suposição da grande maioria da população ser formada por pessoas enganadas — são “gado” — e apenas o pequeno grupo de teóricos da conspiração iluminados enxerga a verdade.

A popularidade das teorias da conspiração parece ter aumentado nos últimos dez ou quinze anos[4]. Há exemplos empíricos que sugerem isso. O estudo de Lisa McKenzie de uma vizinha da classe trabalhadora em Nottingham observou o predomínio de teorias da conspiração clássicas, concentrada nos Illuminati, e preferidas em relação a críticas ao capitalismo[5], como observado pela autora. Também há números. Segundo um relato, cerca de 22 milhões de pessoas nos EUA creem que o governo forjou o pouso na lua; e cerca de 160 milhões acreditam na existência de uma conspiração envolvendo o assassinato do ex-presidente americano John F. Kennedy[6]; além disso, em pesquisa recente, descobriu-se que 37% dos eleitores americanos acreditavam que o aquecimento global é uma farsa e 28% acreditavam que uma “elite poderosa secreta com uma agenda globalista está conspirando para eventualmente dominar o mundo por meio de um governo mundial autoritário, ou a Nova Ordem Mundial[7]”. Teorias da conspiração agora são tão comuns ao ponto de algumas se misturarem com a opinião “popular” em invés de estarem limitadas a teóricos da conspiração dedicados à teoria em questão. O Facebook e outras mídias sociais são um veículo para muitas delas.

Um relatório recente realizado pelo think-tank conhecido como Demos (2010) sugere a preocupação do Reino Unido com teorias da conspiração (ou deveria estar). O receio se dá diante da desconfiança fomentada por essas teorias entre o governo e o público — fato gerador de um efeito subversivo. O relatório examina os laços entre as teorias da conspiração e grupos “extremistas”, com o seguinte argumento:

Ainda que não seja possível demonstrar relações causais diretas entre as teorias da conspiração e o extremismo, nossas descobertas sugerem que a aceitação de teorias da conspiração em contextos de extremismo serve com frequência como “multiplicador radicalizador”, que retroalimenta as ideologias, dinâmicas internas e os processos psicológicos do grupo. Elas unificam grupos extremistas e os incitam a uma direção mais extrema e às vezes violenta.[8]

Como uma forma de populismo, parece provável, contudo, serem as teorias da conspiração mais um reflexo da desconfiança e não sua criadora.

Naturalmente, há muitas conspirações reais na história e na política contemporânea. Historicamente, temos boas evidências de incidentes “fabricados” pelo Estado para iniciar guerras. Três exemplos famosos: o “incidente Mukden” em 1931, usado como pretexto à invasão japonesa da Manchúria[9]; o incidente do “Golfo de Tonkin” em 1964, fundamento para o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnam[10]; e o “Incidente Gleiwitz” em 1939, usado como escusa à invasão da Polônia pelos nazistas[11]. Todos foram ataques aparentemente fabricados para justificar ações militares pré-planejadas. Entretanto, nenhum destes “incidentes” envolveu a enorme destruição de recursos ou o sacrífico em massa dos cidadãos de seu próprio país, em contraste aos incidentes de conspiração como Pearl Harbor, onde alguns dizem que Roosevelt e Churchill sabiam previamente o que aconteceria e o permitiram, para justificar o envolvimento americano na 2ª Guerra Mundial. (Como veremos abaixo, a teoria da conspiração de que o “11 de setembro foi um inside job” tem um formato similar.) Logo, estas conspirações reais não são encenações de uma suposta oposição entre a “elite” e o “povo”. O acobertamento da polícia no desastre de Hillsborough também foi uma conspiração real[12], é claro, assim como Watergate, além da lista negra de trabalhadores pela “Consulting Association”[13] entre 1993 e 2009[14]. Portanto, algumas conspirações pelas forças estatais são, indubitavelmente, reais, enquanto outras são meras teorias e chamadas de teorias da conspiração. E, naturalmente, reconhecemos a eventual utilização do termo “teoria da conspiração” com o propósito de desacreditar[15]. Não obstante, há certas características distintivas dessas explicações normalmente chamadas de teorias da conspiração.

Uma definição de conspiracionismo é a crença de forças malignas, poderosas e ocultas controlarem os destinos humanos[16]. Do mesmo modo, há a noção da “história como vontade”[17]. Premissas relacionadas e compartilhadas por muitos teóricos da conspiração incluem a ideia de nada acontecer por acidente, pois tudo está conectado[18]; o poder como motivo oculto para todo o resto; o beneficiário de um evento apontado como o causador dele; e a história ser determinada por conspirações[19].

Ainda que estas características digam respeito à natureza do mundo, outras características distintivas das teorias da conspiração dizem respeito à maneira como viemos a conhecer esse mundo. A premissa fundamental de que as aparências enganam é a base de numerosas afirmações do mundo ser realmente o oposto daquele apresentado — por exemplo, ver os inimigos políticos como aliados e aqueles que são aliados políticos como inimigos[20]. A forma circular da justificativa frequentemente encontrada em discussões sobre evidências também é distintiva: “evidência negativa mostra a força dos conspiradores em manipular evidências”[21]. Como no exemplo do Charlie Hebdo, geralmente há uma ênfase em discrepâncias aparentes na versão oficial dos eventos ou na maneira como é relatada, sendo o primeiro passo para postular uma versão alternativa. Outra característica é sua “pseudoerudição meticulosa”[22] e seu formato de citação de fontes baseado no modo acadêmico convencional[23]. Ademais, segundo diversos estudiosos das teorias da conspiração, o tratamento seletivo de evidências é parte da marca, assim como é aceitar indiscriminadamente qualquer argumento que aponte para uma conspiração[24].

O termo “teoria da conspiração” abrange uma gama de tipos de explicação, desde relatos de acontecimentos específicos a teorias da conspiração grandiosas ou mundiais, em que explicam uma série de eventos e relações sociais. Os tipos de teoria da conspiração nos quais estamos interessados neste artigo são aqueles que são populistas, que caracterizam tipicamente o mundo em termos maniqueístas (isto é, como divido entre a “elite” e o “povo”) e que, portanto, expressam suspeita do/e hostilidade ao “sistema”. Estas explicações se oferecem como análises radicais dos “poderosos” — isto é, a operação do capital e suas expressões políticas. Uma das características interessantes destas teorias da conspiração é, pois, sua reflexão com ímpeto crítico. Sugerimos que ao menos parte do motivo para seu recrudescimento (tanto no passado como recentemente) está relacionado às condições sociais nas quais movimentos refletindo as lutas de classes diminuíram ou passaram a ser vistos como derrotados. Quando as lutas de classe estão fortes, os conceitos e categorias da teoria revolucionária (a análise marxiana do capitalismo) fazem mais sentido prático e se tornam relevantes por causa de sua práxis subjacente, na medida em que as pessoas tentam compreender sua situação. Em épocas de fraqueza ou derrotas, contudo, há um vazio que se origina no rompimento entre teoria e prática. Teorias da conspiração não são uma “ideologia dominante”. Ao invés de aceitação, elas expressam um forte sentimento de indignação e de estranhamento do Estado e do capital, ainda que de forma distorcida. Operam como um substituto para análise séria/teórica, uma maneira de “compreender” a impotência atual. Por sua aparência radical ou subversiva, atraem pessoas críticas que buscam atacar e expor as transgressões na classe dominante. Mas sem a práxis, são teorias dissociadas em pontos importantes da realidade social.

Esta visão de um mundo moldado pela vontade de forças poderosas forma um paralelo com a — e de fato parece quase uma paródia — teoria revolucionária. É um paralelo porque concorda com a teoria revolucionária no fato do mundo estar estruturado por relações de poder desiguais, e que os poderosos agem de acordo com seus próprios interesses e contra os interesses da maioria. É uma paródia por causa de sua simplificação de fenômenos complexos ao nível de um simples ato de vontade; os atores estatais não são mais vulneráveis, humanos e às vezes incompetentes; ao contrário, são supercompetentes. Como foi apontado em diversas ocasiões, as teorias da conspiração oferecem uma lógica para o desespero e a inércia; elas contribuem para a impotência — pois, se os “poderosos” estão tão totalmente no controle, não há por que intervir para mudar o mundo. Mas essas teorias da conspiração também se baseiam na derrota e na impotência.

Para explorar essa hipótese das “condições sociais”, primeiro traçaremos a origem e história das teorias da conspiração, e então examinaremos algumas das políticas das teorias da conspiração através de seu surgimento em lutas e iniciativas tanto da esquerda e da direita como anarquistas. Demonstramos como as teorias da conspiração operam para fragilizar, e então consideramos as diferentes explicações para sua prevalência. Por fim, examinamos algumas evidências de como o crescimento das teorias da conspiração se reflete em momentos de derrota e fraqueza na luta de classes, e usamos o exemplo das teorias da conspiração referentes ao atentado de 11 de setembro, ocorrido nos EUA.

Nesta breve história das teorias da conspiração, nos concentramos primeiro nos grupos mais frequentemente identificados como conspiradores poderosos e apontamos como vieram a ser vistos dessa maneira. Veremos que, em parte, a história do suposto surgimento de conspiradores poderosos é uma versão distorcida e reificada da ascensão da burguesia e de grupos protoproletários, contexto que ameaça a mudança social.

Uma tradição de conspiracionismo surgiu na Europa medieval, e especificamente na época das Cruzadas, onde a forma de crença na qual um pequeno grupo de conspiradores — aplicada hoje a judeus, maçons e Illuminatti — surgiu. As Cruzadas para capturar e “proteger” as Terras Santas dos não-cristãos (começou entre 1096–99 e se estendeu por vários séculos) estavam associadas a uma hostilidade popular e perseguição dos judeus e, por sua vez, muitos judeus compreensivelmente se tornaram hostis quanto aos seus perseguidores. Houve dois tipos de teoria da conspiração: a primeira advogava pela busca dos judeus pelo poder mundial de forma individual, como grupo etinorreligioso, e a segunda defendia uma suposta colaboração entre judeus e muçulmanos com mesmo fim[26]. Há duas origens para isso; de um lado, a perseguição dos judeus levou a um medo cristão da vingança judaica; de outro, a usura não era permitida em muitos países. Contudo, esta lei não se aplicava aos judeus, alguns dos quais viviam da usura, uma prática que serviu para enfraquecer as relações tradicionais da sociedade feudal. Num sentido importante, portanto, os judeus passaram a ser concebidos como uma força maligna na forma de teorias da conspiração porque se tornaram portadores do estágio inicial do capitalismo.

Um segundo alvo permanente das teorias da conspiração também surgiu das Cruzadas: a Ordem dos Templários. Era um grupo de monges-soldados constituído em 1119 para proteger peregrinos cristãos que iam a e vinham de Jerusalém. A Ordem dos Templários, amplamente aclamados na Europa, era apoiada pelo rei de Jerusalém, assim como uma série de papas e nobres. Eram diferentes de outras ordens monásticas de diversas maneiras importantes, as quais contribuíram para sua reputação como força maligna. Primeiro, eram homens de combate, atividade onerosa dependente de verbas. Segundo, outras ordens monásticas angariavam fundos através de suas terras; empregavam camponeses para trabalhar para eles, e a atividade visível de agricultura e aluguéis era a fonte de sua riqueza. Mas a Ordem dos Templários não tinha tantas terras no início. Pelo contrário, para angariar fundos, usavam sua reputação de integridade e seu leque de contatos para se oferecerem como um serviço bancário. Contudo, novamente, esses serviços bancários conflitavam com as normas feudais contra a usura e, logo, os membros da Ordem dos Templários passaram a serem vistos com suspeita conforme ficavam mais ricos e adquiriam terras. Por fim, eles fracassaram em sua proteção da Terra Santa dos muçulmanos; e isto, combinado com seu secretismo e riqueza, significou que caíram em desgraça com o establishment europeu e foram suprimidos em quase todos os lugares sob acusações de apostasia. Já estavam destruídos no começo do século XIV. Não há qualquer evidência deles tentando, de fato, desafiar a ordem existente; ao contrário, suas atividades bancárias eram um presságio da vindoura mudança social, e talvez seja por isso que muitas ideias modernas sobre sociedades conspiratórias secretas buscando mudar ou se manter no poder se baseiam na Ordem dos Templários.

No século XVIII, os mitos medievais sobre os judeus e Ordem dos Templários foram desenvolvidos às formas modernas de teorias da conspiração que conhecemos hoje. Este desenvolvimento coincidiu com três coisas: o surgimento de muitas sociedades secretas reais, a Revolução Francesa e a emancipação dos judeus. As sociedades secretas mais reais no panteão de teorias da conspiração são os maçons e os Illuminati. A organização dos maçons vem de uma guilda medieval de artesãos que esculpia pedras para castelos e catedrais. No século XVII, pessoas que não eram artesãos começaram a ingressar nas lojas maçônicas e, no começo do século XVIII, a organização se tornou a estrutura que é hoje, com uma Grande Loja e um ethos moral, bem como um conjunto distinto de rituais e símbolos de reconhecimento. Pipes (1960, p. 60) os descreve como “liberais de classe média que buscaram melhorar a sociedade através da livre expressão, eleições e secularismo”. Em outras palavras, foram parte da burguesia emergente; ainda que eles mesmos possam não ter sido revolucionários, representavam o mundo em mudança, onde a riqueza era mais fluida e não atada a certos grupos. Lojas em breve se espalharam do Reino Unido à Europa continental, onde seu reformismo moderado foi visto como radical e condenado pelo rei da França, os jesuítas, o vaticano, as autoridades protestantes, e o governo russo. “O medo da maçonaria cresceu mesmo quando os membros se tornaram mais prósperos, bem estabelecidos e conservadores” (Pipes, op. cit.). O medo dos maçons era o medo de alguns do capital que nascia. Adversários ligavam os maçons a outras sociedades secretas e com os judeus, e construíam uma continuidade da Ordem dos Templários.

Havia numerosas sociedades secretas na segunda metade do século XVIII, muitas das quais usaram os maçons como modelo[27] ou foram estabelecidas em oposição a eles. No século XIX, muitos grupos adotaram esta forma de organização como uma maneira de evitar a perseguição: em muitos dos casos, era necessária manter em segredo a existência de grupos reivindicantes da mudança social, caso contrário, arriscariam a morte de seus membros. Elementos também podiam ser encontrados no início do movimento sindical — por exemplo, juramentos de lealdade — por motivos parecidos.

A mais significativa das primeiras sociedades secretas no final do século XVIII foi a Ordem dos Illuminati, criada por Adam Weishaupt, professor de Direito em Ingolstadt, na Bavária, como uma tentativa de criar um mundo justo e moderno numa sociedade corrupta — um programa político muito mais radical do que aquele dos maçons[28]. Os Illuminati só duraram oito anos antes de serem suprimidos, mas tiveram bastante influência, particularmente quanto à sua organização, que exigia lealdade de seus membros, mas que tinha uma estrutura de “elite” e “massa”, na qual a liderança está envolvida nos segredos íntimos e objetivos máximos, ao passo que sua base só sabe os objetivos mais amenos e menos radicais. Esta forma parecerá um tanto familiar, pois versões dela podem ser reconhecidas nos tempos modernos por todo o espectro político e de movimentos sociais — de leninistas (como o SWP) a partidos fascistas[29] a testemunhas de Jeová.[30] Como os entristas de hoje, os membros dos Illuminati entravam em outras sociedades secretas, como os maçons, numa tentativa de influenciá-los, uma estratégia que outras sociedades adotavam.

No final do século XVIII, o maciço crescimento das sociedades secretas, junto do medo relacionado a elas, foi a base de um tipo bastante comum de explicação para acontecimentos políticos. Este processo foi aumentado pela Revolução Francesa, uma vez que clubes clandestinos foram uma parte importante dela (portanto, inspirou ainda mais os grupos revolucionários ao redor do mundo a adotarem esta forma — logo, o blanquismo, o leninismo etc.). A aparente utilidade das teorias da conspiração foi em particular o caso específico das explicações existentes que dominavam na época terem dificuldades de compreender a revolução, a qual representou uma mudança enorme em relação a tudo que ocorrera antes. Também era do interesse de algumas seções da sociedade o oferecimento de explicações conspiratórias; assim, os monárquicos se concentravam em conspiradores poderosos ao invés de sua própria incompetência como uma maneira de identificar um pequeno grupo de inimigos considerados mais fáceis de serem derrotados, diferente de um movimento de massas.

Mas além de dar sustentação a teorias da conspiração, a Revolução Francesa mudou as teorias da conspiração para sempre. O tamanho e escala da Revolução Francesa significou o surgimento de teorias da conspiração mundiais: teorias sobre inimigos buscando (ou atingindo) a dominação mundial. Após a Revolução Francesa, um grande número de publicações proferiu explicações elaboradas para os eventos de 1789, atribuindo os eventos à Ordem dos Templários, aos Illuminati e/ou aos maçons.[31] A primeira organização não havia sido suprimida de modo algum, diziam os autores, mas tinha entrado na clandestinidade por séculos para conspirar. Uma dessas obras pseudoacadêmicas, as Memórias Ilustrando a História do Jacobinismo, de Augustin de Barruel (1797–98), foi por um tempo o livro mais circulado na Europa.

O único grupo que parece não ter sido culpado pela Revolução Francesa foram os judeus. Só após a emancipação judaica, ocorrida após a Revolução Francesa, surgiu a teoria da Conspiração Judaica Mundial. O fato dos judeus terem se beneficiado da Revolução, diante do fim das restrições especiais impostas a eles em 1791, levou alguns a sugeri-los como causadores da Revolução Francesa. De Barruel desenvolveu suas ideias para absorver esta e outras conexões para afirmar que os judeus estavam controlando as lojas maçônicas, escravizariam os cristãos, e estabeleceriam um governo judeu mundial.

O século XIX testemunhou a maturação das teorias da conspiração. Como mencionamos, uma série de grupos políticos se organizaram como sociedades secretas — num sentido de profecia autorrealizável na medida em que tentavam evitar as forças policiais paranoicas e duras, assim como o medo de governos de direita das mudanças políticas e sociedades secretas. Isto proporcionou o contexto político para as teorias da conspiração parecerem justificadas. Contudo, a partir da metade do século XIX, o centro das conspirações se moveu de pequenas sociedades secretas para as instituições e o Estado. Juntamente com os medos (na Europa) da Grã-Bretanha e dos EUA, este desenvolvimento estava vinculado ao do antissemitismo moderno.

Uma literatura antissemita sobre a Conspiração Judaica Mundial se desenvolveu a partir de 1870. A publicação em 1903 da falsificação d’Os Protocolos dos Sábios de Sião possibilitou aos antissemitas o alcance além de seus habituais círculos pequenos, fato que ocasionou a dispersão de suas ideias para uma audiência maior. Os Protocolos descrevem como líderes judeus planejavam criar uma “organização supergovernamental” e se apresentar como uma transcrição de um Congresso Sionista que ocorreu na Basileia em 1871. Ao estilo das teorias da conspiração clássicas, sugere-se o uso de ferramentas contraditórias por judeus — tanto o capitalismo como o comunismo — para atingir seus objetivos; logo, a teoria apelava a todo o espectro político.

No século XX, portanto, houve uma mudança pela qual, em invés de serem vistos como pequenos grupos fora do establishment tentando tomar o poder (a burguesia crescente), os conspiradores eram agora vistos como enraizados no establishment e já no poder (a burguesia ascendente). A partir dos anos 1930, formas de conspiracionismo eram mainstream, como é evidenciado pelo medo Macarthista da conspiração soviética quando milhares de trabalhadores americanos, os quais serviam na indústria do entretenimento ou para o governo, foram acusados de serem membros do Partido Comunista com poucas ou nenhumas evidências. Enquanto as guerras mundiais viram essas ideias nas mãos de governos europeus (nazista e russo), após a segunda guerra mundial, elas começaram a diminuir no Ocidente[32]. Elas também mudaram novamente. O EUA, ao invés do Reino Unido, passou a ser visto como o principal conspirador.

Escrevendo em 1997, Pipes observou o ressurgimento de teorias da conspiração na Europa nos anos de 1990 (v. g., o uso feito por Jean Marie Le Pen da teoria da conspiração Judaica Mundial e o crescimento das teorias da conspiração maçônicas durante a guerra da Sérvia), mas ele concluiu pelo então recuo das teorias da conspiração no Ocidente, tal como não pareciam ter impacto relevante sobre as “pessoas comuns” que as encontravam. Desde então, contudo, o avanço da internet (e especialmente do Facebook) deu a muito mais pessoas acesso imediato a teorias da conspiração, e fontes sugerem que houve um crescimento de interesse nos últimos dez ou quinze anos, como observamos anteriormente[33]. O outro desenvolvimento principal é que muitas das teorias da conspiração acabaram misturadas. Além do aumento de popularidade, houve um desenvolvimento na complexidade das teorias da conspiração nos últimos 10 anos[34]. Quanto ao conteúdo, o desenvolvimento principal foi a fertilização cruzada das diferentes teorias, tradições separadas no passado, mas paralelas.

Assim, Barkun (2013) distingue entre “conspirações de eventos” (foca-se em determinado evento ou eventos, como o assassinato de Kennedy), “conspirações sistêmicas” (foca-se nos objetivos amplos de uma única organização, como os judeus, maçons etc.) e superconspirações (onde se crê na união de múltiplas conspirações de forma hierárquica — este tipo cresceu desde os anos 1980). Contudo, campos de concentração da FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergências), dispositivos de controle da mente implantados e os Illuminati podem ser tratados individualmente ou como conectados[35]. Uma nova mistura são as conspirações da direita radical/antigoverno e as de alienígenas (incluindo Nostradamus, óvnis e teorias sobre os Illuminati). Escritores das conspirações de alienígenas há muito suspeitavam do governo, o que começou a se misturar com o conspiracionismo de direita nos anos 1980 e 1990, recorrendo-se a múltiplas fontes.

A POLITICA DAS TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

Historicamente, indo até a Revolução Francesa, as teorias da conspiração têm sido associadas à direita. Hoje são muito associadas à extrema-direita (às vezes Alt Right)[36]; mas, de fato, teorias da conspiração são populares em todo o espectro da direita nos EUA, particularmente nos últimos vinte e poucos anos. A decisão dos EUA de entrar em guerra no Golfo (1990–91) foi tomada por Pat Buchanan, David Duke[37] e outros como evidência de uma agenda sionista baseada na infiltração judaica no conservadorismo. O fato de que a guerra (que os direitistas não viram como do interesse nacional americano), a declaração de Bush de uma “Nova Ordem Mundial” (entendida como uma “Ocupação Sionista do Governo” ou “OSG”), além do cerco do FBI ao conjunto do Ramo Davidiano em Waco, Texas, em 1993, evento que levou ao surgimento do movimento miliciano. O ataque à bomba realizado pelo veterano da Guerra do Golfo, Timothy McVeigh, em Oklahoma foi parte disso; ele justificou suas ações diante das mortes iraquianas e da política externa americana no Oriente Médio[38]. Hoje, tanto os Imperial Klans of America (isto é, a Ku Klux Klan) e as diversas milícias de direita (Michigan Militia, Montana Militia, Missouri 51st Militia, North American Volunteer Militia, Minnesota Minutemen Milita e South Carolina Militia Corps) creem na existência de uma “OSG” (que dizem estar por trás de coisas como as ações afirmativas e o controle de armas). Ademais, as milícias creem que a FEMA preparou campos de concentração para cidadãos americanos.

A direita republicana nos EUA também se baseia em explicações conspiracionistas — por exemplo, recentemente, quando Donald Trump[39] disse, em seu discurso de aceitação para a candidatura à presidência, que o “sistema está fraudado”[40]. Novamente, esse conspiracionismo é populista na forma e frequentemente se aproxima bastante dos movimentos populistas.

Ainda que as teorias possam estar particularmente associadas com a direita, a esquerda e grupos anarquista também se basearam nelas às vezes. O que segue é uma seleção incompleta e um tanto arbitrária de exemplos, mas que ilustra o argumento.

Por volta dos anos de 1970s, o Black Flag[41] publicou sobre os Illuminati[42]. Nos anos de 1980, havia uma série de pequenas teorias da conspiração circulando em lutas contra o Estado. Por exemplo, na colônia de mulheres de Greenham Camp, surgiu uma explicação à prevalência de doenças entre as mulheres: o exército americano estava usando micro-ondas contra elas. Uma explicação mais provável, contudo, é de viverem em caravanas frias e húmidas no inverno. Vale a pena observar também que esta explicação conspiratória só se tornou popular depois de o campo começar a reduzir na medida em que cada vez menos mulheres estavam envolvidas.

No Reino Unido, duas explicações conspiratórias conflitantes sobre revoltas apareceram nos anos 80 e 90 (e mais tarde), respectivamente. Nos anos 80, determinada teoria da conspiração afirmava ter o governo viabilizado ou permitido, de forma deliberada, a inundação de heroína em Toxteth e, subsequentemente, em outras regiões, todos locais de revoltas urbanas, com a finalidade de manter as pessoas passivas[43]. Imediatamente após as revoltas contra o poll tax[44] de 1990, não só os militantes notoriamente atribuíram o início do conflito à intervenção de agentes provocadores[45], mas uma série de anarquistas também disse que a polícia projetara a revolta a pedido do governo Conservador. O mesmo tipo de argumento apareceu durante os protestos estudantis de 2010. Quanto a isso, “explicou-se” que uma perua da polícia, aparentemente abandonada, fora usada como isca para encorajar o ataque de manifestantes, como pretexto para aparentarem injustificadamente destrutivos[46]. E novamente, em 2011, no vídeo Rebellion in Tottenham[47], afirma-se ser o carro de polícia abandonado na Tottenham High Road evidência de uma estratégia policial deliberada, cujo objetivo era atrair pessoas, encorajá-las a queimá-lo e criar a revolta. Isso é o que dissemos na época:

Estes tipos de explicação normalmente se baseiam numa compreensão de “política” na qual os policiais e a multidão estão competindo para conquistar uma audiência “em cima do muro” e apoiadores de “desordeiros” somente quando são as vítimas. Estes tipos de explicação são politicamente enfraquecedores, pois as “vítimas” são inevitavelmente enganadas pelo planejamento maquiavélico e uma antecipação superior dos policiais superinteligentes. Se essas teorias da conspiração são verdadeiras, não há motivo para agir, pois a ação real ocorre por detrás das câmeras.

Contudo, explicações assim raramente são verdadeiras e, em geral, são uma besteira total. Parece que supostas estratégias inteligentes dos policiais nas manifestações estudantis e do poll tax deram errado, pois foram os policiais as vítimas e perdedores, àqueles tratados posteriormente por transtorno de estresse pós-traumático, apresentados como idiotas incompetentes, ao passo que os movimentos se encorajaram com esses eventos.

No caso de Tottenham, há uma explicação muito mais simples e plausível do que uma conspiração policial para os acontecimentos daquela noite. Uma das principais preocupações dos policiais quando os carros estavam queimando era provavelmente o Artigo 2º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, o “direito à vida”. Em outras palavras, eles recuaram porque acreditavam que alguém poderia morrer caso atacassem [e seriam processados] (…). Não queriam arriscar outro Blakelock (homicídio corporativo) ou matar um manifestante, com tudo o que isto implicaria para uma escalada — contra eles. (…). Em geral, os policiais simplesmente não são sofisticados ou organizados o bastante para planejar da maneira que as pessoas imaginam. Eles apenas reagem de um conjunto de circunstâncias a outro; e, em muitos casos (poll tax, Millbank), uma “cagada” é simplesmente uma explicação muito mais plausível para os feitos dos policiais do que uma conspiração.[48]

Ao passo que estas diferentes teorias da conspiração abraçadas por anarquistas vão de eventos mais abrangentes (plano do governo para difamar o movimento contra o poll tax) a eventos específicos (uma tática policial em particular), o que todos eles têm em comum é a noção de autoridades efetivas e prescientes que estão sempre um passo à frente. Naturalmente, os policiais às vezes planejam para tentar difamar protestos. (Uma tática retransmitida para nós por um ex-policial de choque, no poll tax, e ultimamente por um oficial do flying squad londrino, era de vazar informações enganosas para a imprensa antes de uma manifestação potencialmente controversa. Esta informação sairia de duas maneiras: 1. “Manifestantes violentos estão planejando perturbar um evento pacífico”, para encorajar ataques policiais antes do evento e encorajar os organizadores e manifestantes “pacíficos” a se separarem da “minoria violenta” no dia; 2. Além disso, como resultado da ameaça, “as autoridades estão enchendo a rua com policiais, com unidades armadas em espera, o exército” etc., para dissuadir a “minoria violenta” de comparecer.[49]) Mas estes tipos de exemplos não envolvem a projeção de revoltas. Ademais, nosso argumento parte na comparação das teorias da conspiração dos anos 1990 (em diante) com aquela dos anos 1980, o que é revelador. Nos anos 1980, por trás da teoria da conspiração crítica, supunha-se o medo de revoltas por parte das autoridades; mas, por trás das teorias da conspiração mais recentes, está o oposto — as autoridades estão tentando criar revoltas. Estas “explicações” recentes de provocação policial e do Estado difamando movimentos frequentemente se baseiam na suposição da ineficácia de conquistas através de revoltas, e a necessidade de um movimento respeitável. Logo, era mais provável que encontrássemos “teorias da conspiração policiais” após a revolta do poll tax entre aqueles que definiam sucesso em termos da respeitabilidade do movimento — para eles, a revolta foi uma derrota. Como argumentaremos a seguir, a derrota do movimento parece ser um fator importante das teorias da conspiração.

Nos EUA, as “propagandas subversivas” do Adbusters continham a pressuposição da “sociedade de massas”, em que o “gado” não entenderia a crítica[50]. Mais explicitamente, o grupo publicou um artigo intitulado “Por que ninguém diz que eles são judeus?”[51], reproduzindo o antissemitismo do “capital financeiro”, tema característico da teoria da conspiração mundial judaica. O mesmo tema apareceu em grupos associados ao Occupy Wall Street. Grupos de direita inseriram sua narrativa sobre o Federal Reserve nas políticas visíveis do movimento e usou a estrutura aberta do Occupy para disseminar teorias da conspiração (antissemitas e outras) e o nacionalismo branco[52].

O principal argumento aqui parte da premissa de não ser somente a direita e malucos a abraçarem e acreditarem em teorias da conspiração, tal qual não são explicações exclusivas de direita e antissemitas; há também evidências consideráveis quanto a forma da explicação e alguns dos conteúdos clássicos atraírem pessoas em torno de lutas contra o Estado e o capitalismo, pessoas capazes, em outras situações, de usarem teorias políticas/do capitalismo. Para estas pessoas críticas e opositivas, teorias da conspiração assumem o lugar da teoria — de uma maneira danosa. É por isso que importam.

Acontecimentos inesperados importantes provocam tentativas de entender e explicá-los, sendo um dos principais motivos pelos quais há um pico em teorias da conspiração após esses eventos. Isso parece ser o porquê de muitos dos ataques relacionados ao ISIS no Ocidente terem sido seguidos por teorias da conspiração circulando na internet, como surtos de doenças, a exemplo da Zika[53]. Como Barkun argumenta[54], contudo, as teorias da conspiração cresceram e se espalharam tanto nos últimos 15 anos que isto, por si só, não é uma explicação suficiente.

Foi oferecida uma variedade de explicações para a adoção e popularidade de teorias da conspiração. Há fatores claramente psicológicos e culturais. De diferentes maneiras, estas explicações apontam o papel do (e perda de) poder como um fator. Contudo, relatos psicológicos não podem explicar a variação histórica, na qual estamos particularmente interessados aqui. No passado, a publicação de tratos (por exemplo, d’Os Protocolos dos Sábios de Sião) ajudou a promover teorias da conspiração e hoje a internet claramente desempenha um papel similar na difusão das ideias; eventos mundiais importantes e surtos de doença são frequentemente acompanhados por teorias da conspiração circuladas nas mídias sociais. Contudo, como explicação, isso é tão limitado e unilateral quanto os relatos psicológicos/culturais.

Uma das maiores áreas de possível explicação é a psicologia. Hofstadter[55] comparou a crença nas teorias da conspiração à paranoia[56]. Contudo, pesquisas mais recentes sugerem que a causa são variações de personalidade e cognitiva ao invés de transtornos mentais. Uma série de variáveis de estilo cognitivo têm sido descobertas para prever crenças em teorias da conspiração, incluindo receptividade, suspeita, desconfiança em outras pessoas ou instituições[57], e menor capacidade de raciocínio analítico[58]. Além do mais, demonstrou-se o sentimento de impotência e altos níveis de desconfiança como fatores a levarem pessoas a acreditarem em conspirações[59].

Também é dito que acreditar em teorias da conspiração é uma estratégia usada por pessoas para recuperar um senso de controle em suas vidas, mesmo em campos aparentemente irrelevantes para a teoria da conspiração[60]. Apesar desse motivo de “controle”, a crença em teorias da conspiração é intuitivamente enfraquecedora; a teoria retrata um mundo no qual vale pouco a pena agir, já que forças poderosas estão sempre um passo à frente. De fato, uma característica peculiar das teorias da conspiração é a reificação da impotência. Isso também foi demonstrado experimentalmente; exposição a conspirações lideradas pelo governo levou pessoas a terem menos intenção de se engajarem em política e menor probabilidade de votar[61].

Estas observações sobre a impotência indicam um tipo diferente de explicação. Bem como níveis variáveis entre indivíduos, a impotência pode variar de acordo com as culturas[62]. Variações interculturais estão além do escopo deste artigo. No entanto, vale notar que, segundo um comentador, a disseminação/captação das teorias da conspiração parece estar correlacionada à pobreza/impotência; na medida em que os países se desenvolvem, as teorias da conspiração diminuem[63].

Ademais, a impotência relativa também pode variar com o passar do tempo. As estatísticas sobre a popularidade de teorias da conspiração mostram tendências históricas que não podem ser reduzidas a diferenças cognitivas individuais. Em particular, o que precisa ser explicado é a crescente popularidade nos últimos quinze anos, e a invasão das teorias da conspiração no mainstream.

As teorias da conspiração nas quais estamos nos concentrando são populistas em sua forma, e o crescimento do populismo é previsto pela ameaça a setores da sociedade[65]. Contudo, essas teorias da conspiração não são uma simples forma de populismo; elas não só atacam “elites”, mas também atribuem uma supercompetência a elas. Portanto, busca-se aqui explorar como as teorias da conspiração ganham espaço, particularmente em momentos de clara e compartilhada indignação, mas também de derrota ou recuo e, por conseguinte, uma ruptura entre as atividades das quais as pessoas podem fazer parte e suas ideias para expressar determinada compreensão dentro das próprias relações antagônicas. Quando não há atividade ou movimento social para encarnar uma alternativa, eventos mundiais se tornam reificados na vontade da “elite” através de uma conspiração. Quando parece não haver agência em sua classe, as teorias da conspiração têm adequação prática como maneiras de apreender a operação do capital e da política (“poder”). Analisamos brevemente o surgimento de teorias da conspiração da direita e então da classe trabalhadora negra antes de explorar como isso pode ter operado para a teoria da conspiração mais disseminada nos dias de hoje, a ideia de que 11 de setembro foi um inside job.

Escrevendo em 1964, Richard Hofstadter[66] disse que, embora teorias da conspiração circulassem há muito tempo, um novo “estilo paranoico (de direita)” havia surgido nos EUA. Três desenvolvimentos principais nos EUA parecem ter contribuído para a suspeita da direita com relação a certas forças invisíveis controlarem o governo federal: o medo da subversão comunista, extensões do poder do governo (o New Deal — introduzido nos anos 1930 e aceito pelos Republicanos nos anos 50) e a entrada de judeus na vida pública[67]. Ele descreve como a penetração de teorias da conspiração poderia ser, portanto, explicada em temor da (percebida) desapropriação de certos grupos sociais na sociedade americana e as mudanças políticas em prática em dado momento. A adesão a teorias da conspiração foi intensificada pelas respostas de alguns homens, majoritariamente em New England e entre o clero estabelecido, à ascensão da democracia jeffersoniana. Os porta-vozes de movimentos anteriores (século XIX) pensavam defender causas e tipos pessoais ainda sob o controle de seu país — imaginavam combater ameaças a um estilo de vida estável já estabelecido. Mas na metade do século XX, estas mesmas pessoas se sentiam desapropriadas: o EUA tinha sido em grande parte retirado deles e de seu grupo, embora estivessem determinados em tentar reapropriá-lo e evitar o ato de subversão definitivo. Seus antecessores haviam descoberto as conspirações; a direita radical contemporânea vê a conspiração como a traição vindo de cima:

Sem ter acesso à negociação política ou à tomada de decisões, eles veem sua concepção original de que o mundo do poder é sinistro e mal-intencionado completamente confirmada. Veem apenas a consequência do poder — e isso através de lentes distorcidas — e não têm chance de observar engrenagem real.[68]

O panfleto de Will et al. (2013), How to Overthrow the Illuminati[70] foi produzido como uma intervenção. Eles estavam respondendo a crescente popularidade de teorias da conspiração Illuminati na classe trabalhadora negra e na cultura hip hop[71] nos EUA. Pretendiam demonstrar como, quando pessoas se baseavam em teorias da conspiração Illuminati para explicar o mundo social e a operação de poder e sua expropriação, estavam, na verdade, tentando entender o capitalismo, e uma compreensão do capitalismo era necessária:

Muitas pessoas negras viam pequenos empresários explorando os clientes negros e bancos se recusando a conceder empréstimos a negros, e algumas dessas pessoas eram judias. (…) Estes artistas e ativistas negros tomaram equivocamente a aparência imediata de sua opressão como a essência do problema. Sim, negros foram explorados por empresários pequeno-burgueses e banqueiros. Sim, muitos deles (mas nem todos) eram judeus. Mas exploravam negros porque eram empresários, não por causa de sua religião.

Teóricos Illuminati sentem essa força [o capitalismo] operando na sociedade, mas identificam-na incorretamente.[72]

O que é particularmente interessante aqui se dá pela breve análise de Will et. al., sendo uma tentativa de relacionar o aumento nas teorias da conspiração ao declínio em particular área da luta de classes. Eles realçam que nos anos 70, várias teorias da conspiração já circulavam nas comunidades negras dos EUA há anos. Estas incluíam a ideia de que alguns refrigerantes populares em bairros (negros) de baixa renda eram, na verdade, fabricados pela Ku Klux Klan e continham ingredientes projetados para esterilizar os homens negros; outra teoria da conspiração alegava ter sido a Aids criada pelo governo para exterminar os negros; e uma terceira, espelhando-se na teoria da conspiração da heroína e das revoltas do Reino Unido dos anos 80 (ver acima), defendia a facilitação da epidemia do crack pelo presidente Reagan e CIA, pelos mesmos motivos[73]. Em cada caso podemos talvez entender a teoria da conspiração como uma versão distorcida de qual era a situação real dos americanos negros — pois, quanto aos empregos, rendas, serviços e tratamento pela polícia, eles estavam de fato sendo “destruídos” pelo Estado, bem como sendo perseguidos por grupos de direita.

Estas diferentes teorias da conspiração se consolidaram e unificaram em uma única teoria da conspiração mundial, com base no mito dos Illuminati e outros grupos, contudo, só após as derrotas do movimento nos anos 70. “No meio dos anos 70, o movimento de libertação negro fora praticamente derrotado. As rebeliões haviam sido abatidas com força armada, e os revolucionários estavam mortos ou presos” (p. 10). Notavelmente, os meios do Estado para esmagar não só os Panteras Negras e grupos “violentos”, mas também o movimento por direitos civis mais em geral era o Cointelpro (FBI’s COunter INTELligence PROgram)[74] [Programa de Contrainteligência do FBI] que comprimia uma série de operações secretas, muitas das quais eram ilegais.

Ao mesmo tempo:

O capitalismo americano [também] adotou reformas para enfraquecer o movimento. Prefeitos negros foram eleitos em cidades por todo os EUA. Novas carreiras se abriram para os profissionais negros. Sempre existira [sic] empresários e pessoas de classe média negras, porém a segregação legal e a violência em grupo de brancos os mantiveram vivendo e servindo à comunidade negra. Agora, muitas das barreiras sociais e legais contendo a burguesia e a classe média negra foram removidas. Ascenderam social e economicamente rapidamente, e deixaram os negros pobres para trás…

As teorias da revolução oriundas destas lutas [anteriores] perderam popularidade. Tudo isto deixou um vazio político nas comunidades pobres e de classe trabalhadora negras. Pessoas negras haviam alcançado posições de poder econômico e político, mas a opressão e exploração racistas continuaram para as pessoas negras pobres e da classe trabalhadora. Como seria possível explicar essa realidade?

A teoria dos Illuminati serviu para preencher esse vácuo. Era parecida com outras teorias da conspiração usadas no passado. Dizia ter tido sucesso a elite negra porque participava de um grupo secreto de dominadores ou tinha feito um acordo com diabo. Afirmava que as pessoas negras pobres e da classe trabalhadora ainda eram oprimidas porque estes dominadores eram superpoderosos. E a tendência se aprofundou nos anos 90.[75]

Exploramos agora até onde este tipo de explicação — em termos da derrota de um movimento — pode ser aplicado para ajudar a explicar a repentina popularidade da que se diz ser a “maior” teoria da conspiração de um evento: a crença do 11 de setembro como um inside job.

Relatos questionando se os ataques de avião de 11 de setembro aos prédios do World Trade Center e do Pentágono foram realmente um ataque da Al Qaeda apareceram poucas horas depois do evento. Estas versões alternativas se concentravam em anomalias no relato oficial. Uma das “anomalias” mais bem conhecidas é a evidência supostamente contraditória em relação ao avião que atingiu o Pentágono, matando 184 passageiros e pessoas no Pentágono além dos próprios sequestradores. Após tirar numerosas fotografias nos destroços, um repórter da CNN foi citado como tendo dito que ele não via evidências de uma queda de avião “por perto”. O mesmo repórter, posteriormente, declarou que suas palavras haviam sido distorcidas; ele postou fotos dos destroços do avião e tentou convencer alguns dos céticos diretamente, mas só sua declaração anterior foi aproveitada por estes “truthers” [buscadores da verdade], muitos dos quais disseram que o Pentágono havia sido atingido por um míssil, não um avião[76]. Outro elemento comum nas teorias da conspiração do 11 de setembro é a afirmação do desmoronamento das torres do WTC ter sido feito através de uma explosão controlada, não de um ataque de avião.

Há uma gama de conspirações sobre o 11 de setembro. Uma das variedades mais populares sugere que o próprio establishment americano foi responsável pelos ataques de 11 de setembro. Uma versão enfraquecida sugere que Bush et. al. sabiam de antemão do ataque e deixaram acontecer. Esta não é uma teoria típica de direita, mas sim uma crítica embasada numa crítica de esquerda ou liberal da política externa americana; o argumento parte da hipótese do governo dos EUA terem encenado o ataque para justificar uma consequente guerra por controle e petróleo no Oriente Médio. Também se diz, quanto ao suposto conluio com terroristas financiados por aliados sauditas, ter sido um truque para justificar maior securitização e controle nos países ocidentais[77]. Outra versão sugere o planejamento dos eventos por Israel.

Há muito mais detalhes nas variações da teoria da conspiração de 11 de setembro que não vamos explorar aqui[78]. Também não vamos passar muito tempo desmistificando estas teorias, uma vez que isso já foi bem feito em outro lugar, exceto para argumentar o seguinte. Primeiro, porque os EUA e a Al Qaeda já estavam em guerra há anos antes deste evento, um ataque da Al Qaeda é a explicação parcimoniosa para os eventos, logo uma explicação conspiratória é desnecessária. Segundo, há uma incompreensão fundamental de como a política internacional funciona para se sugerir a necessidade do establishment americano realizar um ato tão arriscado de autodestruição para fabricar uma desculpa para suas intervenções no Oriente Médio e Afeganistão[79]. E, terceiro, como é o caso com teorias da conspiração similares, uma ação assim por parte dos EUA exigiria um nível implausível de obediência, organização e cumplicidade.

As primeiras teorias da conspiração completas de “inside job” apareceram uma semana após os ataques. Elas foram publicadas primeiro na França e tratadas pela mídia americana ora com perplexidade, ora como piadas. Nos primeiros dias, a teoria da conspiração estava restrita a críticos contraculturais ou de esquerda.

Foi só depois de 2004 que as teorias da conspiração de 11 de setembro começaram a despertar mais interesse do público em geral. Houve uma escalada nas publicações e da cobertura na mídia tradicional entre 2004 e 2006[80]. Essa resposta pública era agora reconhecida como tão séria e difundida que o governo americano se sentiu obrigado a responder oficialmente. Eles rebateram as afirmações da teoria da conspiração sobre o colapso do WTC com a publicação de um relatório do National Institute of Standards and Technology [Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia], que basicamente demonstrava como os aviões danificaram as colunas de sustentação do edifício e deslocaram as estruturas anti-incêndio. Toneladas de combustível de aviação foram derramadas no edifício e os consequentes incêndios fizeram com que vigas se expandissem e desconectassem das colunas de perímetro até cederem. Isso criou sons de explosões. Em 2006, o Departamento de Estado americano também chegou a refutar as teorias da conspiração em site próprio. Essas refutações e pareceres detalhados similares de engenheiros estruturais tiveram, na realidade, o efeito contrário ao de silenciar os “truthers”, os quais se esforçavam em desafiar cada um dos detalhes forenses presentes nos pareceres de refutação.

Em suma, portanto, ainda que as teorias da conspiração do 11 de setembro existam desde o advento, o grande interesse nelas (nos EUA em particular) não surgiu até 2004 — três anos depois. Esta mudança no interesse pode ser observada em pesquisas de opinião[81]. Nos concentramos agora nas possíveis explicações para este padrão.

Um dos fatores que foi abertamente reconhecido como contribuirdor à disseminação de teorias da conspiração em geral (e, logo, a teorias de “inside job” no 11 de setembro em particular)[82] é o crescimento do uso da internet[83]. Contudo, em todas as medidas — horas e números de pessoas online, número de usuários do Facebook, uso de smartphones –, o crescimento do uso da internet foi constante e linear[84]. A curva de crescimento do uso de internet é bastante diferente da curva de crescimento das teorias da conspiração de 11 de setembro.

Apenas a internet não pode explicar o crescimento na crença em teorias da conspiração do 11 de setembro. Além disso, a internet também disponibiliza refutações. Isto posto, apesar de o crescimento no uso da internet e do Facebook em particular terem claramente contribuído para a absorção de teorias da conspiração do 11 de setembro — simplesmente ao torná-las mais disponíveis –, esta taxa de crescimento tem um padrão diferente do aumento maciço e repentino do interesse (particularmente nos EUA) em teorias do 11 de setembro a partir de 2004.

O fato que está claramente relacionado ao padrão do aumento de interesse nas teorias da conspiração do 11 de setembro é o crescimento repentino nas críticas à Guerra do Iraque e do presidente George W. Bush nos EUA e do governo Blair no Reino Unido. Mais óbvio, o fracasso em não encontrar as armas de destruição em massa, sendo elas supostamente o motivo da guerra. Todavia, houve outros exemplos de desonestidade e mentiras que serviram de alimento à narrativa da teoria da conspiração:

(…) a admissão muito complacente de documentos aparentemente forjados alegando que Saddam havia tentado comprar minério de urânio yellowcake de Níger; a divulgação tardia em 2004 (sob pressão da Comissão do 11 de setembro) do Presidential Daily Briefing de 6 de agosto de 2001, que incluía a seção “Bin Laden Decidido a Atacar os EUA”; e relatórios recentes de que a NORAD [Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte] mentiu para a Comissão do 11 de setembro.[85]

Outros exemplos incluíam a suposta trama de ricina de Wood Green, episódio também levantado para justificar a guerra[86].

Como observamos, muitas teorias da conspiração do 11 de setembro se baseiam na crítica da política externa dos EUA e do Reino Unido. Tornaram-se populares justamente quando esta política estava sendo desacreditada como desonesta e aparentemente baseada em segundas intenções. Todavia, também é interessante, talvez, o porquê desta crítica tomar a forma de uma teoria da conspiração. Quando a Guerra do Vietnã perdeu legitimidade, com a maioria dos americanos considerando-a um erro em 1967, as estruturas nas quais as pessoas se basearam para sua compreensão da guerra não foram teorias da conspiração, mas teorias políticas[87]. Ainda havia um movimento contra a guerra maciço nesse momento, bem como uma crença na sociedade mais em geral de que o mundo poderia ser mudado através de lutas e protestos. No caso da Guerra do Iraque, entretanto, quando a guerra perdeu legitimidade, o movimento de massas contra a guerra havia colapsado depois de ter visto seu fracasso. Isto quis dizer que havia uma ausência de um ponto de referência ou de uma estrutura político-prática alternativa. As pessoas críticas, capazes de se basearem em determinada análise política na qual o poder dos EUA não é tão inevitável, buscaram outros tipos de explicações. Portanto, ainda que o descrédito da desculpa das armas de destruição em massa explique o sentimento de ilegitimidade e indignação, o que ele não explica é o conteúdo de impotência das teorias da conspiração que se tornaram populares nessa época. Este crescimento nas teorias da conspiração, nós sugerimos, poderia corresponder à falta de agência coletiva que acompanha a derrota.

Uma questão importante para se ter em mente ao considerar o movimento contra a Guerra do Golfo (2002–2003) é de que era um movimento de massas genuíno — no Reino Unido, nos EUA e muitos outros países ao redor do mundo. Isto fica particularmente claro ao comparar este movimento com outros movimentos (potenciais) que o precederam. O movimento antiglobalização/anticapitalista (1999–2001) teve uma existência pequena fora das mobilizações nas maiores conferências — do G8, da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), da União Europeia. Também estava devastado por contradições internas[88]. Era um movimento de ativistas, se chegava a tanto, e tinha uma conexão insuficiente com o proletariado em geral. Não era um movimento de massas.

A oposição à Guerra do Golfo em 1991 e a guerra “humanitária” em Kosovo (1998–1999) também fracassou em dialogar com pessoas além dos pequenos grupos de ativistas de costume[89]. Isso vale para o movimento em oposição a guerra de 2001–2002, contra os ataques ao Afeganistão. Imediatamente, após 11 de setembro, uma rede de grupos locais e uma série de manifestações nacionais foram organizadas para fazer campanha contra o bombardeamento. Mas isso logo diminui, na medida em que ativistas o abandonavam e, eventualmente, o movimento veio a ruir.

Em contraste, o movimento contra a guerra no Iraque, ativo em 2002, foi um dos movimentos mais excitantes em anos. Foi um movimento de massas. Protestos contra as ameaças de bombardeamento no Iraque começaram em setembro de 2002. Os eventos ocorreram durante todo o mês de outubro. No Reino Unido, a Stop the War Coalition[90] convocou protestos locais para o dia 31 de outubro de 2002, em coordenação como uma convocação similar por manifestações ao redor do mundo. A Indymedia reportou cerca de 150 eventos assim apenas no Reino Unido naquele dia (que era um dia útil)[91]. A manifestação de rua e o protesto da escola infantil em Brighton no determinado dia ludibriaram a polícia, e seu sucesso em controlar as ruas influenciou manifestações posteriores (e as repostas policiais).

No Reino Unido, as “reuniões” de massa nacionais foram cuidadosamente coreografadas pelo Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) através de sua organização de frente, a Stop the War Coalition, com a maioria das pessoas não sendo tão críticas a eles. Não obstante, parecia que todas as cidades tinham seu próprio grupo contra a guerra, que se encontrava regularmente e, desta forma, o movimento existiu bem além da frente.

Grandes manifestações continuaram por todo o mês de janeiro de 2003, culminando na maior manifestação que o mundo havia visto[92], em 15 de fevereiro de 2003. Globalmente, cerca de 10 milhões de pessoas se manifestaram em ao menos 600 cidades em todo o mundo, quebrando, em muitos países, o recorde de público que antes eram dos protestos do começo dos anos 80 contra o armamento nuclear. Também era um público bastante misturado, incluindo muitas pessoas que não tinham histórico de atividade política, com bagagens muito diferentes:

Em muitos países, observadores enfatizaram a diversidade interna do público e a representatividade [sic] do protesto. No Reino Unido, o The Times, por exemplo, descreveu as manifestações de Londres: “Grupos representando suas igrejas e mesquitas locais, estudantes universitários, pais com crianças pequenas… Pessoas que nunca foram a uma manifestação antes… as avós, com idades entre 40 a uma frágil senhora de 86 anos. Cozinheiros, professores, médicos, programadores de computador e avós. Caminhantes virgens, idosos, os jovens, famílias, pessoas de todas as camadas sociais”. (…) O alemão Die Zeit fez o mesmo a respeito das manifestações de Berlim: “Pessoas de todas as idades e todas as profissões estavam nas ruas, casacos caros de designer caminhavam lado a lado com parcas usadas”. (…) Como fez o The New York Times: “Os manifestantes vieram de uma ampla gama do espectro político: estudantes universitários, casais de meia-idade, famílias com crianças pequenas, pessoas mais velhas que haviam se manifestado em favor dos direitos civis, e grupos representando o trabalho, o meio-ambiente e organizações civis, religiosas e empresariais”. (…) O holandês NRC Handelsblad afirmou de modo parecido ao relatar sobre a manifestação de Amsterdam: “Manifestantes veteranos, mas também cidadãos apolíticos comuns”. (…) O francês Le Matin expressou exatamente o mesmo ponto de vista se referindo aos protestos em Paris: “Patricinhas, médicos, advogados, estudantes, fazendeiros, desempregados”.[93]

O número oficial de Londres foi 1 milhão de pessoas, apesar de algumas fontes indicarem que chegou a 2 milhões. A manifestação italiana reuniu, segundo os organizadores, 3 milhões de pessoas; houve 250 manifestações só nos EUA e Canadá[94].

No Reino Unido, houve motivos “estruturais” para o crescimento do movimento contra a guerra no Iraque[95]. Havia uma inquietação crescente entre diferentes setores da população, incluindo as “classes médias”, persuadidas a votarem pelo New Labour, mas estavam enfrentando inseguranças nos empregos de colarinho branco no setor público, perda de aposentadorias por ocupação e, portanto, o fracasso do governo em proteger seus interesses. Muitas eram pessoas se vendo como de classe média, mas agora ameaçadas de se tornarem uma nova classe trabalhadora. A ameaça de guerra contra o Iraque serviu para unir grupos díspares com aflições aparentemente diferentes, mas puderam, então, reconhecer o mesmo antagonismo. Estes estavam entre os motivos pelos quais o movimento contra a guerra no Reino Unido foi muito maior e mais inclusivo do que os movimentos que o haviam precedido. O enorme tamanho significou ter um alto nível de atividade e participação, incluindo ações perturbadoras à vida cotidiana em muitas cidades ao redor do país — como o bloqueio de ruas. Ainda que muitas dessas ações (manifestações, protestos) não fossem em si particularmente radicais, é interessante notar a aproximação de muitas pessoas até então não “políticas”, mas politizaram-se através de sua participação. Isso significava uma característica eventual delas, como pouco imprevisíveis e “descontrolados” — consoante o evento do Halloween mencionado acima.

Este fluxo de pessoas novas criou uma sensação de possibilidade desafiadora ao sentimento costumeiro de fatalismo, acompanhado da ameaça da guerra, o qual havia evitado o desenvolvimento de campanhas contra a guerra no Afeganistão. Assim, a gigantesca manifestação em Londres engendrou uma sensação de que o movimento poderia surtir algum efeito, poderia impactar o ímpeto à guerra, evitando-se seu desenrolar. De fato, a convicção de muitos daqueles que participaram na manifestação era quanto a capacidade de influenciar o voto parlamentar e parar a guerra.

O movimento teve algum impacto[96]. A classe dominante foi abalada pelo tamanho e a composição da oposição. O governo rachou e foi forçado a concordar com um voto parlamentar, causando um atraso de vários meses no começo da guerra. Conquanto, a guerra aconteceu. As manifestações de 15 de fevereiro foram o zênite do movimento e, em efeito, o começo do fim. No dia do começo da guerra, houve manifestações maciças ao redor do mundo. Nada obstante, o movimento decaiu rapidamente. Manifestações continuaram, mas eram muito menores; elas e os grupos locais se tornaram numericamente dominados pelas mesmas caras de sempre ao invés de novas.

Após o começo da invasão em março de 2003, muitos dos novos ativistas acreditavam na inevitabilidade da guerra diante do tamanho e força das manifestações, uma vez que, se aquelas do 15 de fevereiro não evitaram a guerra, então a ação coletiva em si era inútil. O fracasso ao evitar a guerra teve um efeito de desilusão para estes neófitos.

Como vimos, foi depois deste momento — isto é, em 2004 — que as teorias da conspiração do 11 de setembro acabaram disseminadas e até viraram “mainstream”. As revelações sobre a desonestidade das administrações Bush e Blair, em 2004, aconteceram num momento em que o movimento contra a guerra havia murchado ao pequeno núcleo duro de ativistas. Na medida em que envolvia a maioria das pessoas, não havia movimento contra a guerra, nenhuma “política alternativa” à política da guerra.

As pessoas dissidentes do movimento contra a guerra, desiludidas com a “política” e as lutas, são as mesmas pessoas que agora se sentem atraídas pela conspiração do 11 de setembro? A base do crescimento na crença nas teorias da conspiração do 11 de setembro é, em grande medida, de esquerda, operando como uma crítica da política externa americana da mesma maneira como o movimento fizera. Pelo menos algumas das pessoas recém-politizadas provavelmente tinham as mesmas reclamações e hostilidade com relação ao Estado americano, e provavelmente eram aquelas buscando uma compreensão crítica separada da atividade de protestos. Conhecemos algumas pessoas assim. E muitas outras para quem as teorias da conspiração do 11 de setembro agora tiveram apelo, provavelmente foram aquelas que nunca foram ativas, incluindo guerreiros do teclado e outros críticos passivos, que poderiam ter tratado a atividade e a análise do movimento (isto é, que as lutas mudam a política) como um ponto de referência; eles não poderiam mais fazer isso se não houvesse um movimento.

Para muitas dessas pessoas críticas e impotentes, antes, a teoria incorporada pelos movimentos de massa contra a guerra (de um mundo formado por lutas) faria sentido; mas, agora, as teorias da conspiração do 11 de setembro talvez fossem uma boa “opção”. Estas teorias da conspiração do 11 de setembro expressavam a insatisfação sentida com um mundo de “injustiça”, no qual o “establishment” das “nações ricas” poderia liquidar milhares de pessoas, apesar dos desejos de seus próprios cidadãos. As teorias da conspiração também realçavam o sigilo, a desonestidade e a natureza clandestina do poder, alinhadas com a trama para mentir sobre as armas de destruição em massa. As teorias da conspiração também salientavam as alianças estratégicas que constituem o mundo político no topo. Além disso tudo, e fundamentalmente, as teorias da conspiração refletiam a impotência (ou ao menos a sensação dessa impotência) que vem da desconexão da “política” ou atividade e a possiblidade de mudança social; expressam a fraqueza que resulta da derrota e a sensação de que as “elites” vão impor sua vontade contra e apesar de tudo que o “povo” pode fazer. Há uma mudança da “política” como algo que fazemos para a “política” como as maquinações de elites que nós contemplamos. Ainda que a condição das teorias da conspiração do 11 de setembro sejam, portanto, a fragilização, este também é seu efeito, pois, se verdadeiras, estas teorias previnem o ímpeto à ação para promover mudanças.

Não buscamos, neste artigo, refutar as teorias da conspiração (exceto de passagem), mas sim compreender as condições para seu surgimento e popularidade. As teorias da conspiração frequentemente confundem a operação do capitalismo com uma conspiração consciente de um pequeno grupo. Observamos o surgimento de teorias da conspiração com um foco em determinados grupos pequenos, aparentemente tentando alcançar o poder num momento em que a burguesia estava se organizando. No século XX, quando as teorias da conspiração se deslocaram para a noção de que os conspiradores estavam, na verdade, no poder, o capitalismo se consolidou na Europa e nos EUA. Nos tempos modernos, ainda que haja uma série de fatores que parecem explicar sua disseminação, as teorias da conspiração populistas parecem refletir não apenas uma oposição ao “sistema” — geralmente uma forma distorcida de oposição à operação do capitalismo — mas também uma derrota ou fracasso real que dá origem à impotência. As teorias da conspiração expressam essa impotência como a ideia de poder e presciência ilimitados das “elites”.

Há diferentes graus de derrota e impotência, capazes de explicar algumas das diferentes reações de grupos seguidores de teorias da conspiração. Ainda que teorias da conspiração liberais de esquerda como “o 11 de setembro foi um inside job” parecem estar correlacionadas com uma ausência de atividade, as teorias da conspiração da direita parecem ter levado alguns à mobilização. A visão das milícias de direita de uma “OSG” sugere a retirada de suas armas pela elite liberal, e colocá-las em campos de concentração da FEMA etc. — mas estas coisas não aconteceram ainda. Dentro do sistema, estes teóricos grupos de conspiração ainda têm a esperança de que podem manter seu estilo de vida. Para outros, entretanto, é tarde demais, logo não há por que resistir.

Se teorias da conspiração realmente refletem um espírito crítico, será que elas podem ser realmente subversivas ou fazem mais mal à causa da revolução do que seu poder de ameaçar este mundo de relações capitalistas? Elas podem ter efeitos positivos involuntários. Segundo uma fonte, teorias da conspiração do 11 de setembro “desempenharam um papel instrumental em convencer vários grupos de pressão do 11 de setembro que havia muitas perguntas sem respostas, o que, por sua vez, levou à pressa na Casa Branca para reavaliar sua oposição inicial a uma investigação completa e sua nomeação inicial de Henry Kissinger como presidente”[97]. O Demos pode estar parcialmente correto ao dizer que teorias da conspiração “criam” desconfiança entre o público e os governos, o que pode nos levar a direções interessantes — bem como a becos sem saída e ao fascismo. Entretanto, nossa análise sugere que teorias da conspiração são mais reflexo do que a causa da desconfiança. Portanto, as relações estruturais de antagonismo, não as ideias distorcidas de sair destas relações, são a base real da transcendência.

[1]UKIP voters worried that MI5 will rig EU referendum, new poll finds” , Jon Stone, Independent, 21 de junho de 2016.

[2] “The psychology and economy of conspiracy theories” Frankie Mullin, Vice, 20 de janeiro de 2015.

[3]Charlie Hebdo: les theories conspirationistes démontées point par point”, Les Observateurs, 13 de janeiro de 2015.

[4] Várias fontes dizem a mesma coisa, por exemplo, M. Barkun, A culture of conspiracy: Apocalyptic visions in contemporary America, 2013. Alex Miller, The conspiracy theory community are dangerous enemies to make, Vice, 24 de abril de 2013.

[5] L. Mckenzie, Getting by: Estates, class and culture in austerity Britain, Policy Press, 2015.

[6] Conspiracy craze: why 12 million Americans believe alien lizards rule us, 2 de abril de 2013.

[7] Public Policy Polling: conspiracy theory results [Página inativa no momento desta publicação]

[8] Jamie Bartlett & Carl Miller, The Power of Unreason, Demos, 2010, p. 4–5.

[9] J. Weland, “Misguided Intelligence: Japanese military intelligence officers in the Manchurian Incident, Septem­ber 1931”, Journal of Military History, 58 (3), p. 445–460.

[10] C. G. Appy, Vietnam: The definitive oral history told from all sides, Ebury Press, 2006, p. 112–3.

[11] Bob Graham, World War IIs first victim, The Telegraph, 29 de Agosto de 2009.

[12] David Conn, Hillsborough disaster: deadly mistakes and lies that lasted decades,The Guard­ian, 26 de abril de 2016.

[13] A Consulting Association foi uma associação comercial, sucessora da Economic League. [Nota do tradutor]

[14] Mark Ellis, Blacklisting victims win £5.6 million compensation payout from major construction companies, Mirror, 8 de fevereiro de 2016.

[15] Segundo Mark Fenster em Conspiracy theories: Secrecy and power in American culture (1999), “o termo ‘teoria da conspiração’ serve como uma estratégia para a deslegitimação no discuso político. (…) passou a representar um Outro político em relação à ‘devida’ política democrática.

[16] Barkun, op. cit.

[17] R. Hofstadter, The paranoid style in American politics, Harper’s Magazine, 229 (1374), 77–86.

[18] Barkun, op. cit.

[19] D. Pipes, Conspiracy: How the paranoid style flourishes and where it comes from, Simon and Schuster, 1999, p. 40–47.

[20] Ibid., p. 45.

[21] Barkun, op. cit.

[22] Pipes, op. cit.

[23] Hofstadter, op. cit.

[24] Louis Farrakhan aceitou tanto a afirmação antissemita de que Hitler era um descendente ilegítimo dos Roths­childs e a afirmação de Churchill era um fantoche dos Rothschilds; ele explicou a aparente contradição alegando que os Rothschilds se precaveram ao financiarem os dois lados da guerra; Pipes, op. cit. p. 41.

[25] Muito desta seção se baseia no trabalho de Pipes, op. cit.

[26] Ainda que judeus fossem “o inimigo interno”, os muçulmanos eram “o inimigo externo”.

[27] A Carbonária italiana, por exemplo, foi uma das muitas sociedades secretas na península itálica no começo do século XIX.

[28] “Seus ensinamentos hoje parecem ser nada mais que outra versão do racionalismo do Iluminismo, temperado com a atmosfera anticlerical da Bavária do século XVIII. Foi um movimento até certo ponto ingênuo e utópico que aspirava em última instância a unir a raça humana sob os princípios da razão. Seu racionalismo humanitário parece ter adquirido uma influência razoavelmente ampla nas lojas maçônicas”, Hofstadter, op. cit., p. 78.

[29] Em seu estudo de 1978 sobre a Frente Nacional, Michael Billig descreveu como a liderança propagava ódio contra os negros como bucha de canhão para as bases, mas eles mesmos estavam mais interessados na suposta Conspiração Judaica Mundial, as crenças centrais e ocultas da elite do partido que trariam, em última instância, a mudança social; M. Billig, Fascists, Academic Press, 1978.

[30] A estrutura elite/massa adotada nas sociedades secretas e em agrupamentos modernos é uma reificação da or­ganização social da própria sociedade burguesa. Os grupos tomam esta divisão na sociedade entre aqueles que têm conhecimento/compreensão de especialistas (e, portanto, a capacidade exclusiva de liderar) e aqueles que não têm como uma coisa natural e, consequentemente, incorporam-na na organização de seu grupo.

[31] “(…) o pânico que irrompeu em alguns lugares no final do século XVIII sobre as atividades supostamente subversivas dos Illuminati bávaros (…) era parte da reação geral da Revolução Francesa”; Hofstadter, op. cit. p. 78.

[32] Apesar de uma segunda “ameaça vermelha” Macarthista nos anos 1950.

[33] Ver a nota 4.

[34] Barkun, op. cit.

[35] Barkun, op. cit.

[36] Hofstadter (op. cit.) associou o “estilo paranoico” ao milenarismo (a crença [cristã] de que haverá uma era de ouro). O conspiracionismo impõe uma visão dualista no mundo, mas isto não é o suficiente para o milenarismo; e muitas teorias da conspiração não são milenares — muitas são o oposto: elas sugerem que a cabala do mal é invencível (Barkun, op. cit.). Contudo, muitos movimentos milenares são conspiratórios e Barkun também sugere que teorias da conspiração são mais comuns em movimentos milenares do que no passado.

[37] O líder da Ku Klux Klan “David Duke surgiu agora como um dos mais vocais dos teóricos da conspiração extrema-direita sobre o 11 de setembro. Segundo Duke, a al Qaeda estava por trás do ataque, mas Mossad tinha conhecimento prévio e não avisou os EUA para este retaliasse contra inimigos de Israel no Oriente Médio” (A. Winter, 2014, “My enemies must be friends: The American extreme right, conspiracy theory, Islam and the Middle East”, in Conspiracy theo­ries in the Middle East and the United States, eds. M. Reinkowski & M. Butter, de Gruyter, p. 17).

[38] Winter, op. cit., p. 13.

[39] Alguns dos apoiadores de Trump acreditam numa gama de teorias da conspiração: Joseph Uscinski, The 5 Most Dangerous Conspiracy Theories of 2016, Politico Magazine, 22 de agosto de 2016; Max Ehrenfreund, The outlandish conspiracy theories many of Donald Trump’s supporters believe, Washington Post, 5 de maio de 2016.

[40] Bernie Sanders usou palavras parecidas e provou-se posteriormente que ele estava correto — ao menos dentro da máquina do Partido Democrata.

[41] Black Flag é o jornal do grupo Anarchist Black Cross na Grã-Bretanha. [Nota do tradutor]

[42] Ainda que um de nós se lembre muito bem disto, não encontramos vestígios disso agora na internet.

[43] The heroin ghost towns still haunted by Thatcher.

[44] O poll tax ou Community Charge (imposto comunitário) foi introduzida por Margaret Thatcher em 1990 na Inglaterra e visava financiar os governos locais (councils, similares às prefeituras) através da cobrança de uma taxa única a ser cobrada de cada residente adulto, independentemente da renda.

[45] Ver o video Battle of Trafalgar [LINK: https://www.youtube.com/watch?v=uzM_DAy3pnE] [Vídeo indispo­nível, devido a alegação de violação de direitos autorais], no qual um militante faz essa afirmação. Ver também “In Living Memory” [LINK: https://www.bbc.co.uk/programmes/b0093ws4], 12 de março de 2008, BBC Radio 4.

[46] The mystery van, A Latent Existence.

[47] Rebellion in Tottenham.

[48] “Communities, commodities and class in the August 2011 riots”, Aufheben, nº 20, 2012.

[49] Exemplos incluem o May Day de 2001 no Reino Unido, e junho/novembro de 1999 , e o ato contra o governo Bush em 2003.

[50] J. Conatz, Adbusted, 2014.

[51] Anti-semitism in Adbusters, 2004 (artigo original escaneado, onde se vê os nomes dos judeus destacados).

[52] S. Sunshine, The right hand of Occupy Wall Street, 2014.

[53] “Ao analisar mais de 130 mil tweets que mencionavam as palavras ‘Zika’ e ‘vacina’ nos primeiros 4 meses de 2016, os pesquisadores descobriram que afirmações pseudocientíficas e teorias da conspiração cresceram rapida­mente e pari passu com a crescente menção do Zika entre agências de notícias tradicionais, organizações de saúde e agências do governo em todo o Twitter”; A. Bajak, Zika conspiracy theories and Twitter, Undark, 2014.

[54] Op. cit., p. 4.

[55] Op. cit.

[56] Ver Barkun (op. cit., p. 9) para uma crítica dessa visão.

[57] O. Oksman, “Conspiracy craze”, op. cit.

[58] V. Swami, M. Voracek, S. Stieger, U. S. Tran & A. Furnham, Analytic thinking reduces belief in conspiracy theories, Cognition, 133(3), 572–585.

[59] Karen Douglas, Robbie M. Sutton, Mitch J. Callan, Rael J. Dawtry & Annelie J. Harvey, Someone is pulling the strings: Hypersensitive agency detection and belief in conspiracy theories, Thinking and Reason­ing, 22 (1), 2016, p. 57–77.

[60] O. Oksman, op. cit.

[61] D. Jolley & K. M. Douglas, The social consequences of conspiracism: Exposure to conspiracy theories de­creases intentions to engage in politics and to reduce one’s carbon footprint, British Journal of Psychology, 105(1), 2014, p. 35–56.

[62] Hoje, tanto as teorias de sociedades secretas/Illuminati e o antissemitismo são mais fortes no Oriente — especi­almente no Oriente Médio e no Japão — do que no Ocidente (Pipes, op. cit.). (Um de nós viu o Mein Kampf à venda abertamente nas ruas da Amman, Jordânia — algo insólito no Ocidente).

[63] Pipes, op. cit.

[64] Há outros aos quais poderíamos remeter a partir de nossa própria experiência. Por exemplo, quando a campanha contra a M11 link road foi reduzida, alguns moradores passaram da ação direta a David Icke.

[65] “(…) sentimentos de relativa privação pessoal e uma visão geral da sociedade como estando em declínio foram descobertos como os principais previsores do populismo (…). Hoje há evidências razoavelmente consistentes de que o populismo se desenvolve com base no sentimento das pessoas de uma falta de poder político, uma crença de que o mundo é injusto e de que eles não recebem o que merecem — e de que o mundo está mudando rápido demais para eles manterem controle. Quando as pessoas atribuem as origens de sua percebida vulnerabilidade a fatores externos, o populismo [de direita] não está distante”, Stephan Lewandowsky, Why is Populism Popular? A psychologist explains, The Conversation, 2016.

[66] Op. cit.

[67] “Os elementos básicos do pensamento contemporâneo de direita podem ser reduzidos a três: (1) primeiro, houve a familiar conspiração duradoura, passando por mais de uma geração e atingindo seu auge no New Deal de Roo­sevelt, para enfraquecer o capitalismo livre, para colocar a economia sob o controle do governo federal e pavi­mentar o caminho para o socialismo ou o comunismo; (2), o segundo conflito é que funcionalismo de alto escalão do governo foi infiltrado tão profundamente por comunistas que a política americana, desde os dias que resultaram no Pearl Harbor, é dominada por homens que estavam astuta e consistentemente vendendo os interesses nacionais americanos; (3), finalmente, o país está permeado com uma rede agentes comunistas, do mesmo modo que anti­gamente era infiltrado por agentes jesuítas, de modo que todo o aparato da educação, religião, imprensa e a mídia de massas está empenhado num esforço comum para paralisar a resistência dos americanos leais”, ibid., p. 81.

[68] Ibid., p. 86.

[69] Hood é no inglês americano uma designação para subúrbios negros nos entornos de grandes cidades americanas; um equivalente possível, ainda que não 100% preciso, seria “na comunidade/subúrbio”.

[70] “Como combater os Illuminati”

[71] Jay-Z, por exemplo. Ver Drew Millard, Por que os rappers norte-americanos adoram teorias da conspiração?, Vice, 02 de fevereiro de 2016.

[72] Will et. al., 2013, p. 10, 20.

[73] Pipes, op. cit., p.2–5.

[74] “(…) um programa de ação secreta lançado contra os movimentos sociais dos anos 60 e 70, percebido como ameaças internas à ordem social e política. O programa almejava corajosamente a perturbar e destruir movimentos sociais como os Panteras Negras e os Students for a Democratic Society [Estudantes por uma Sociedade Demo­crática]. Também conspirava esquemas bizarros como um plano proposto pelo FBI para atingir gráficas com uma substância ‘imitando o cheiro das fezes mais fétidas disponíveis’. Segundo o relatório, pelo menos 18% do pro­grama pretendia atingir diretamente palestrantes, professores, escritores e reuniões e manifestações pacíficas, em lugar de atividades criminosas”, Brank Marcetic, Why Activists Today Should Still Care About the 40-Year Old Church Commitee Report, 3 de maio de 2016.

[75] Will, et. al., op. cit. p. 10–11.

[76] J. J. McIntyre, Elements of Disbelief: A case study of 9/11 truthers and the persistence of misinformation in the digital age, 2014.

[77] Outro exemplo de “quem se beneficia de um evento deve tê-lo causado”.

[78] Ver P. Knight, Outrageous conspiracy theories: Popular and official responses to 9/11 in Germany and the United States, New German Critique, 35, 2008, p. 165–93. Ele também defende que, apesar de as teorias da cons­piração do 11 de setembro tenham muitas características das teorias da conspiração clássicas, elas também se destacam de maneiras importantes — por exemplo, na construção de uma complexidade maior do que um esquema maniqueísta (p. 182).

[79] Naturalmente, inventou Armas de Destruição em Massa como uma desculpa para atacar o Iraque, mas o fato de ter ignorado a ONU sugere que não dependia completamente de uma desculpa e teria atacado da mesma ma­neira.

[80] Knight, op. cit.

[81] Pesquisas de opinião do NY Times/CBS: “Quando se trata do que sabiam antes de 11 de setembro de 2001 sobre possíveis ataques terroristas contra os EUA, você acha que os membros da administração Bush estão di­zendo a verdade, estão dizendo a verdade mas ocultando alguma coisa, ou estão principalmente mentindo?”

As respostas de maio de 2002: 21% afirmaram “dizendo a verdade”, “65% afirmaram que estavam “dizendo a verdade, mas escondendo alguma coisa”, 8% disseram que estão “principalmente mentindo”, 6% não sabiam.

Na pesquisa realizada entre 30/3 a 1/4/2004 pela CBS, 24% disseram “dizendo a verdade”, 58% disseram que “estavam dizendo a verdade, mas escondendo alguma coisa”, 14% disseram que estão “principal­mente mentindo”, 4% não sabiam.

Na pesquisa da CBS de 8/4/2004, 21% disseram “dizendo a verdade”, 66% disseram que “estavam dizendo a verdade, mas escondendo alguma coisa”, 10% disseram que estão “principalmente mentindo”, 4% não sabiam.

Na pesquisa realizada entre 23/4 e 27/4/2004, 24% disseram “dizendo a verdade”, 56% disseram que “estavam dizendo a verdade, mas escondendo alguma coisa”, 16% disseram que estão “principalmente men­tindo”, 4% não sabiam.

As respostas de outubro de 2006: 16% disseram “dizendo a verdade”, 53% disseram que “estavam dizendo a verdade, mas escondendo alguma coisa”, 28% disseram que estão “principalmente mentindo”, 3% não sabiam. (Opinion polls about 9/11 conspiracy theories, ênfase nossa).

[82] D. Banks, The internet as conspiracy theory, The Society Pages, 2016.

[83] M. J. Wood & K. M. Douglas, Online communication as a window to conspiracist worldviews, Frontiers in Psychology, 6, 2015.

[84] A medida correta aqui deveria ser n — 1 fatorial para representar as conexões entre as pessoas. Contudo, usamos uma medida baseada no indivíduo agregado como regra de ouro.

[85] Knight, op. cit., p. 182–3.

[86] Wood Green ricin plot.

[87] Naturalmente, a Guerra do Vietnã perdeu legitimidade por outros por motivos senão a desonestidade do go­verno.

[88] “Anticapitalismo como ideologia… e como movimento?”, Aufheben, 10, 2002.

[89] “Um movimento contra a guerra fenomenal”, Aufheben, 12, 2004.

[90] Esta organização foi estabelecida em setembro de 2001 em resposta aos ataques ao Afeganistão, e inicialmente liderada pela esquerda do Partido Trabalhista, o Partido Socialista, a CND (Campaign for Nuclear Disarmement) e as organizações muçulmanas.

[91] Don’t Attack Iraq Actions Across Country.

[92] S. Walgrave & J. Verhulst, Government stance and internal diversity of protest: A comparative study of protest against the war in Iraq in eight countries, Social Forces, 87(3), 2009, p. 1355–1387.

[93] Ibid.

[94] D. Della Porta, M. Diani & L. Mastellotto, No to the war with no ifs or buts: Protests against the War in Iraq, Italian Politics, 19, 2003, p. 200–218.

[95] Para mais detalhes, ver Aufheben, 12, 2004, op. cit.

[96] Embora um efeito não tão grande quanto o SWP sustentou.

[97] Knight, op. cit., p. 182.

Traduções de textos da Esquerda Comunista www.fb.com/proeliumfinale

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