A raiva negra balança os pilares podres da “civilização” burguesa e democrática.

Il Programma Comunista, 1965

Policiais californianos durante a revolta de Watts.

E, afinal, uma vez que se passou a explosão da “revolta negra” na Califórnia, o conformismo internacional “enterrou” o evento sob uma grossa manta de silêncio; enquanto o burguês “iluminado” ainda busca ansiosamente descobrir as causas “misteriosas” que haviam dificultado a operação do mecanismo democrático de forma “normal e pacífica”, qualquer observador de qualquer lado do Atlântico poderia ser consolado ao se lembrar que, afinal, as explosões de violência coletiva por “pessoas de cor” não são nada novas nos EUA e, por exemplo, que uma explosão séria ocorreu em Detroit em 1943, sem qualquer consequência séria.

Mas algo profundamente novo aconteceu neste inflamado episódio de uma raiva, não vagamente popular, mas de natureza proletária, algo a ser seguido não com uma objetividade fria, mas com paixão e esperança. E é isso que nos faz dizer: a revolta negra foi esmagada; vida longa à revolta negra!

A novidade — para a história das lutas pela emancipação dos proletários e sub-proletários negros, e não para a história da luta de classes em geral — é a coincidência quase perfeita da pomposa retórica da promulgação presidencial de direitos civis e políticos, e a erupção de uma fúria anônima, subversiva, coletiva e “incivil” por parte dos “beneficiários” do “magnânimo” gesto; entre a enésima tentativa de seduzir o escravo torturado com uma miserável cenoura que nada custa, e a recusa imediata e instintiva deste escravo de permanecer vendado, curvado e escondido.

Duramente, instruídos por ninguém — não por seus líderes mais gandhianos que Gandhi; nem por um “comunismo” à moda da URSS, que, como o L’Unitá¹ se apressa em dizer, rejeita e condena a violência –, mas educados pelas duras lições dos fatos da vida social, os negros na Califórnia gritaram para o mundo, sem terem a consciência teórica, sem precisar expressá-la em uma linguagem bem desenvolvida, mas reivindicando-a na ação, a simples e terrível verdade de que a igualdade política e legal não é nada enquanto houver desigualdade econômica; e que é possível acabar com ela, não por meio de leis, decretos, sermões ou homílias, mas só ao derrubar por meio da força as fundações de uma sociedade dividida em classes. É esse rompimento repentino do véu das ficções legais e da hipocrisia democrática que desconcertou e só podia confundir os burgueses; é isso que focou o entusiasmo dos marxistas de verdade; e é isso que precisa capturar as imaginações do proletário adormecido nos casulos das metrópoles de um capitalismo nascido historicamente sob uma pela branca.

Quando o Norte americano, já nos trilhos em direção ao capitalismo, lançou uma cruzada pela abolição da escravidão predominante no Sul, não o fez por razões humanitárias, ou por respeito aos princípios eternos de 1789, mas porque era necessário desarraigar uma economia capitalista pré-patriarcal e “libertar” a força de trabalho para que esta se tornasse em enorme recurso para o ganancioso monstro capitalista. Assim, antes da Guerra Civil, o Norte encorajou a fuga de escravos das plantações do Sul, foi seduzido por uma mão-de-obra que estaria à venda por muito pouco no mercado de trabalho e, além deste benefício direto, possibilitaria a redução do salário da mão-de-obra empregada ou, pelo menos, evitar seu aumento. Durante e após a guerra, o processo foi rapidamente acelerado, ao se tornar generalizado.

Foi uma transição historicamente necessária para superar os limites de uma economia super-atrasada; e o marxismo saudou isso, mas não porque não sabia que, “libertada” no Sul, a mão-de-obra negra encontraria no Norte um mecanismo de exploração já em vigor, e ainda mais feroz em determinados aspectos. Nas palavras d’O Capital, o “bom negro” estaria livre para entregar sua pele ao mercado de trabalho para ser marcada: libertado das correntes da escravidão do Sul, mas também do escudo protetor de uma economia e sociedade baseadas em relações pessoais e humanas, ao invés de relações impessoais e desumanas; livre, isto é, sozinho, nu e desarmado.

E, na verdade, o escravo que fugiu para o Norte viria a perceber que, não mais do que antes, estava em uma posição inferior; porque era pago menos; porque estava privado de qualificações profissionais; porque estava isolado em novos guetos como um soldado de um exército industrial de reserva e como uma ameaça potencial de desintegração do tecido conector da propriedade privada; porque sofria discriminação e estava sujeito à segregação como alguém que não se sente como um ser humano, mas como um burro de carga, e como tal, a vender a si mesmo ao primeiro comprador sem exigir mais e melhor.

Hoje, um século após sua suposta “emancipação”, lhe é concedida a “plenitude” de direitos civis pelo mesmo ato ao passo que sua renda média é dramaticamente inferior àquela de seu concidadão branco: seus salários são metade dos de seu irmão de pele branca, o pagamento de sua parceira é um terço da parceira deste; no próprio ato em que as metrópoles douradas do negócio o confinaram em terríveis guetos de miséria, doença, insegurança, isolando-o atrás de muros de preconceitos, hábitos e regulações policiais; no próprio ato em que o desemprego que a hipocrisia burguesa denomina “tecnológico” (ou seja, é o preço “inevitável” para avançar no caminho do progresso, não a culpa da sociedade atual), tem suas vítimas mais numerosas entre seus irmão de raça, porque eles são as fileiras de trabalhadores comuns ou sub-proletários consignados aos empregos mais árduos e mais humildes; no próprio ato em que ele é igual no campo de batalha aos seus irmãos brancos, situação é absolutamente diferente ao se depararem com a polícia, o juiz, o fiscal tributário, o dono da fábrica, o líder do sindicato, o dono de sua favela urbana.

E também é inegável — e incompreensível para o pedante — que essa revolta tenha irrompido na Califórnia, onde a média salarial dos negros é maior que no leste; mas é precisamente nessa região do boom capitalista e do assim chamado “bem-estar” que a disparidade de rendas é a maior. É aqui que o gueto, já há muito delimitado ao longo da costa do Atlântico, se torna rapidamente circundado pela presença da exibição obscena de luxo e desperdício, da boa vida da classe dominante — que é branca!

É contra essa hipocrisia de igualitarismo consagrada jesuiticamente na lei, mas negada na realidade de uma sociedade com profundas trincheiras de classe, que a raiva negra explodiu; da mesma maneira que a raiva explode entre os proletários brancos, atraídos e empilhados nos novos centros industriais do capitalismo avançado, amontoados nas favelas, nos guetos monótonos, nos casebres da própria sociedade burguesa em que são “livres” para vender sua força de trabalho para… não passarem fome; da mesma maneira de sempre, a fúria das classes dominadas explode e, como se isso não fosse suficiente, também desdenha e difama!

“‘Revolta premeditada’ contra o Estado de direito, os direitos de nossos cidadãos e a manutenção da ordem”, exclamou McIntyre, o Cardeal de nossa ‘Santa Mãe Igreja’, como se o novo escravo sem correntes nos tornozelos tivesse motivos para respeitar uma lei que é mantida pelo seu rosto contra o chão; ou que esse “vizinho” de brancos que nunca se viu com “direitos” pudesse ver nesta sociedade baseada na mentira tripla de liberdade, igualdade e fraternidade algo diferente da desordem elevada ao nível de um princípio.

“Direitos não são conquistados por violência”, bradou Johnson². Mentira. Os negros se lembram, mesmo que só tendo ouvido que os brancos tiveram de travar uma longa guerra para conquistar os direitos negados a eles pela metrópole inglesa; sabem que os negros e brancos, temporariamente unidos, tiveram de levar a cabo uma guerra ainda mais longa para obter inclusive a aparência de uma “emancipação” ainda impalpável e remota; veem e sentem diariamente a retórica chauvinista exaltando a exterminação dos índios vermelhos, a marcha dos “pais fundadores” a novas terras e “direitos” e a violência brutal dos pioneiros do oeste, “exaltados” à civilização pela Bíblia e pelo álcool. O que é tudo isso senão violência?

Incipientemente, os negros compreenderam que não há problema na história americana, como aquela de todos os países, que não tenha sido resolvido pela força; não há direito que não seja resultado de batalhas, às vezes sangrentas, sempre violentas, entre as forças do passado e do futuro.

Cem anos de espera pacífica pelas concessões magnânimas dos brancos lhes trouxeram muito pouco, se deixarmos de lado o pouco que a explosão ocasional de raiva pôde arrancar da mão avarenta e covarde do chefe. E como o governador Brown³, defensor dos direitos que os brancos sentiam estar sendo ameaçados pela “revolta”, respondeu senão pela violência democrática das metralhadoras, dos cassetetes, dos blindados e um estado de sítio?

E então o que é essa experiência, senão aquela das classes oprimidas sob todos os céus, seja qual for a cor de sua pele e sua origem “racial”? O negro, fosse ele um proletário puro ou um sub-proletário, que gritou em Los Angeles: “Nossa guerra é aqui, não no Vietnã”, expressou uma ideia idêntica àquela dos homens que “lançaram um ataque aos céus” durante a Comuna de Paris e àquela daqueles que em Petrogrado enterraram os mitos da ordem, do interesse nacional, das guerras civilizatórias, e que finalmente anunciam uma civilização humana.

Nossos burgueses não podem se consolar ao pensarem: estes são episódios distintos que não nos interessam, aqui não há um problema racial. A raça é agora, de maneira mais evidente que nunca, uma questão social.

O fato de os desempregados e os semi-empregados esfarrapados em nosso sul não encontrarem mais a segurança da emigração; o fato de não poderem viajar além das fronteiras sagradas da pátria para serem esfolados vivos (e serem massacrados em desastres não devido ao acaso, caprichos inesperados da atmosfera ou, quem sabe, mau-olhado, mas pela sede do capital pelo lucro, sua busca frenética por economias nos custos dos materiais, meios de transporte, dispositivos de segurança, e talvez por ganhos futuros na reconstrução após desastres que são inevitáveis e tudo menos imprevisíveis mesmo quando são lamentados hipocritamente); o fato de as favelas de nossas cidades industriais e nossas capitais morais (!!) estarem lotadas, e estarão ainda mais do que hoje, com proscritos sem trabalho, pão, poupanças, e você terá um “racismo” italiano, já visível hoje nas recriminações dos habitantes do norte da Itália contra os sulistas “primitivos” e “sem cultura”.

Esta é a estrutura social que nos pedem para viver hoje que dá origem a tais infâmias; é sob suas ruínas que elas desaparecerão.

É isto que alerta e lembra aqueles que, drogados pelo ópio democrático e reformista, e sem memória, cochilam no sonho ilusório do bem-estar, a “revolta negra” na Califórnia — nem distante nem exótica, mas presente em nosso meio; imatura e derrotada, mas um prenúncio de vitória.

1 — L’Unitá era o jornal diário do Partido Comunista Italiano.

2 — O democrata Lyndon Johnson era o presidente dos EUA à época (ganhara a posição após o assassinato de Kennedy, de quem era o vice-presidente). Seu programa “Grande Sociedade” incluiu reconhecimento de “direitos civis” para negros, a “guerra contra a pobreza”, a instituição de medidas sociais no setor de saúde, como o Medicare e o Medicaid para os pobres, etc. Foi sob seus mandatos que o envolvimento estadunidense na Guerra do Vietnã, iniciado por Kennedy, realmente se intensificou.

3 — Pat Brown, governador democrata da Califórnia de 1958 a 1966, quando foi derrotado por Ronald Reagan.

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Traduções de textos da Esquerda Comunista www.fb.com/proeliumfinale

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